Archive for the ‘observatório da imprensa’ Category


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Notícia
Rádio e televisão: potencial de jornalismo local no Brasil
Sérgio Spagnuolo e Renata Hirota
Uma coisa é pessoas terem acesso a algum tipo de informação. Outra, é terem acesso a informações sobre o local onde vivem. Com a internet, as facilidades de abrir um navegador e saber o que se passa no Congresso Nacional permitiram com que as pessoas saibam todos os pormenores na política nacional. Todos os bastidores, os processos no Ministério Público, as opiniões de magistrados e acesso a dados minuciosos sobre gastos parlamentares.Saiba mais

0 comentáriosO Atlas da Notícia em 2018

Equipe do Observatório da Imprensa
A segunda edição do Atlas da Notícia prevê a atualização e expansão da base de dados estatísticos coletados inicialmente em 2017. Publicados pelo Observatório da Imprensa, todos os dados e análises são abertos ao público. Saiba mais

Novo relatório do Atlas da Notícia aponta que 50 milhões de brasileiros vivem em deserto de rádio e TV locais
Volt Data Lab
Neste novo relatório, mostramos como 50 milhões de brasileiros (cerca de 25% da população) vivem em cidades onde não há presença registrada de emissoras de rádio nem de televisão, dois veículos que possuem uma penetração muito significativa no interior do país. Saiba mais


Código informativo

A nova função da notícia na guerra por corações e mentes
Carlos Castilhoa

Vocês já notaram como a TV Globo aumentou a frequência na divulgação de mensagens não comerciais envolvendo temas como direitos da mulher, respeito às diversidade social, igualdade de sexos, importância do agronegócios? Saiba mais
Novembro de 2017
Conheça a primeira fase do Atlas da Notícia
Equipe do Observatório da Imprensa

A primeira etapa do Atlas da Notícia foi lançada em novembro de 2017 na edição especial 965 do Observatório da Imprensa. Reveja os principais conteúdos daquela edição. Saiba mais
Checagem de informações
OIT ainda analisa denúncia sobre reforma trabalhista</a
Equipe da Agência Pública

A reforma trabalhista alterou disposições da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) e tem sido alvo de críticas, intensificadas desde que as mudanças entraram em vigor, em novembro de 2017. Saiba mais
Entre o clientelismo e o menor esforço
O jornalismo local falha com a democracia
Eduardo Nunomura
Uma imprensa local fraca implica em uma democracia nacional fraca? Essa questão me perseguiu (e ainda persegue) por anos e fiz dela meu objeto de pesquisa na Universidade de São Paulo. Saiba mais

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CASO ERIC GARNER
O consenso da mídia diante de uma injustiça brutal
09/12/2014 na edição 828
“Nós não conseguimos respirar”, estampava a primeira página [4/12] do tabloide nova-iorquino Daily News, em referência às últimas palavras de Eric Garner, morto em julho durante uma ação policial em Staten Island, onde morava. Garner, de 43 anos, foi agarrado pelo pescoço por policial que tentava, com a ajuda de outros, imobilizá-lo. Caído no chão, ele diz várias vezes que não consegue respirar. O incidente foi filmado. O homem que fez as imagens diz que Garner, que era ambulante e vendia cigarros avulsos na rua, havia apenas apartado uma briga quando foi abordado pela polícia.

Na quarta-feira [3/12], a justiça americana decidiu não indiciar o policial acusado de realizar a manobra que acabou sufocando Garner. Milhares de pessoas foram às ruas de Nova York em um protesto pacífico contra a decisão, interrompendo o trânsito em algumas ruas da cidade. A história torna-se ainda mais dramática porque ocorre poucos dias depois da justiça inocentar o policial que matou o jovem Michael Brown em Ferguson, no Missouri. Nos dois casos, os policiais eram brancos e as vítimas, negras – o que impulsionou o já inflamado debate sobre discriminação racial em abordagens policiais.

Indignação
Mas se o caso em Ferguson dividiu a mídia americana, o de Nova York fez com que ela encontrasse certo equilíbrio. Na morte de Michael Brown, enquanto veículos conservadores mostravam ceticismo sobre a investigação aberta para averiguar as ações do policial Darren Wilson em agosto, a imprensa liberal ressaltou as queixas de negros, que reclamam de como são tratados pela polícia rotineiramente em suas comunidades. Já a notícia sobre a liberação do policial Daniel Pantaleo – visto no vídeo agarrando o pescoço de Garner – provocou incredulidade nos três principais canais de notícias a cabo dos EUA. Tanto no liberal MSNBC quanto no conservador Fox News, a reação dos âncoras e comentaristas era a mesma.
“A decisão de hoje levanta questões profundas e dolorosas sobre a justiça na América”, declarou o reverendo Al Sharpton em seu programa, Politics Nation, na MSNBC. Na mesa redonda The Five, na Fox News, a apresentadora Kimberly Guilfoyle enfatizava como a reação policial contra Garner havia sido desproporcional. A âncora Greta Van Susteren, no mesmo programa, mostrava-se cética: “Este homem estava desarmado, estava vendendo cigarros – quero dizer, não era um roubo, ele estava vendendo cigarros – e você tem vários policiais em volta dele, e quando ele disse que não conseguia respirar deveria ter sido uma boa oportunidade para que parassem… Nós não aplicamos a pena de morte por venda ilegal de cigarros nas ruas”. Na CNN, comentaristas diziam-se surpresos com a decisão da justiça. “Dados os fatos disponíveis e levando em consideração que Eric Garner, que cometeu um delito muito pequeno, se é que cometeu, acabou morrendo, é surpreendente [a decisão inocentando o policial]”, afirmou o analista legal Jeffrey Toobin.

O humorista Jon Stewart abriu mão das piadas para falar sério sobre o caso em seu programa The Daily Show, que mistura jornalismo com humor no canal Comedy Central. “Se comédia é igual a tragédia mais tempo, então eu preciso de mais tempo”, afirmou, completando: “Mas eu ficaria contente com menos tragédia, para ser franco com vocês”.

Justiça sufocada
Alguns cartunistas ressaltaram, em seus desenhos, o fato do vídeo que registrou a morte de Garner não ter, aparentemente, contribuído para a decisão da justiça. Matt Davies, do jornal Newsday, desenhou todos os membros do júri vendados, enquanto a figura da justiça, também vendada, mostra a eles imagens em um celular. “Eu gosto de distorcer as coisas e quero que as pessoas sejam pegas de surpresa quando olham meus cartuns. Neste caso, o júri também está vendado. Eu espero que isso fortaleça a mensagem”, diz Davies

Outros jornais publicaram cartuns em que a figura da justiça aparece sufocada. Foi o caso do Boston Globe e do New York Daily News. Em ambos os desenhos a justiça profere a última frase de Garner, que virou palavra de ordem nos protestos: “Eu não consigo respirar”.
“Eu acho que, para certos eventos excitantes, cartunistas costumam buscar uma imagem ou frase simples e certeira. Aqui você tem um grande senso de injustiça junto com o apelo agonizante de Garner. Não é surpresa que vários cartunistas fizeram uma combinação destes elementos”, afirma o cartunista Dan Wasserman, cujo desenho para oBoston Globe mostra a justiça de joelhos, lendo um jornal com a manchete sobre a decisão de não indiciar o policial e pensando que não consegue respirar.

A rede varejista Walmart tirou do ar, um dia após a decisão da justiça, um comercial que – ainda que não intencionalmente – lembrava a morte de Garner. No anúncio, um homem negro dá um celular a sua filha que, empolgada, o agarra com força enquanto ele reclama, sufocado: “não consigo respirar”. A empresa afirmou que o comercial estava no ar desde o meio do ano, mas resolveu interromper sua circulação após receber críticas no Twitter. “Nós entendemos por que o anúncio pode ser visto de forma diferente do que foi visto originalmente”, respondeu o Walmart no microblog.


Imprensa em Questãoobs_logo 2008
CASO XICO SÁ
Pluralismo sem bizantinismo
Por Alberto Dines em 21/10/2014 na edição 821

O “caso Xico Sá” mostra o quanto é possível avançar com um mínimo de transparência e, como corolário, desvenda o mundo de contradições produzido pelas gotículas de pluralismo oferecido por nossa mídia impressa, dita “burguesa”. Aliás, a única que consegue prosperar no reino do mandonismo – para nossa desgraça, a mídia nanica repercute mas não prospera.

Detalhes e prolegômenos do caso foram apresentados com isenção na coluna da ombudsman da Folha de S.Paulo, Vera Guimarães Martins, no domingo (19/10), com o título “O voto que só não diz o nome” (ver aqui. Os comentários da ouvidora oferecem os elementos básicos para discutir a questão com uma perspectiva menos simplista e panfletária.
A direção do jornal embargou o texto do colunista esportivo a ser publicado no dia seguinte (sábado, 11/10), onde declarava o seu voto em favor da candidata à reeleição, Dilma Rousseff. A direção ofereceu ao jornalista duas opções: publicar o texto na seção “Tendências/Debates” (página A3) ou mudar a sua formulação para não enquadrar-se como “proselitismo partidário”.

Judicialismo imperial
O colunista recusou, pediu imediatamente a demissão em protesto contra a cassação do direito de manifestar sua opinião e postou nas redes sociais uma diatribe contra os paradigmas da Folha e do resto da grande imprensa (ver aqui). Em seguida, sumiu do mapa, evaporou-se. Não retornava os recados e mensagens, inclusive da produção do programa de TV do Observatório da Imprensa que seria exibido na terça seguinte (14/10).

Por sua vez, a Folha também não se manifestou, nem explicou as razões da ausência do colunista. Os leitores bombardearam a ouvidora indignados com a liberdade gozada por outros opinionistas e negada a Xico Sá. Não conseguiam captar nem entender a diferença entre o elogio a candidatos & programas e o delito de praticar “proselitismo eleitoral”.

E não é para entender. O jornalão assume no caso a mesma sutileza daqueles que admitem um direito mas não permitem que seja exercido por inteiro. Este bizantinismo, visivelmente herdado dos colonizadores ibéricos, só floresce em sociedades e instituições insuficientemente permeadas pelo Iluminismo.

Direitos ou deveres devem ser claros, portanto absolutos, tolerados integralmente ou liminarmente negados. O jornalão parece ter assimilado do ambiente à sua volta um judicialismo tão intenso e tão imperial que em breve precisará de um STF intestino para dirimir as diferentes interpretações do seu código de conduta cotidiana, isto é, seu Manual de Redação.

Íntegra devida
Se um jornal se assume como pluralista, seus opinionistas devem gozar de plena liberdade para que este pluralismo seja visível, a olho nu. Se esta liberdade está sendo pervertida ou abusada, quem deve reclamar é o leitor, ou seu defensor: o(a) ombudsman.

>Embargar um texto político na véspera de uma eleição é pênalti. A cobrança da falta, porém, só poderá ser consumada terminado o processo eleitoral. No meio do caminho, antes das urnas ligadas, merece cartão amarelo. Isso é pluralismo levado a sério. O resto é conversa mole pra boi dormir, como diria um dos mineiros que disputam a Presidência.

O “caso Xico Sá” comporta desdobramentos. Se o jornalista vítima de um ato arbitrário resolve espernear – o que se espera das vítimas de injustiças na esfera da comunicação social –, sua reclamação deve ser pública, notória, inequívoca. Protesto abafado ou envergonhado não é protesto, pode ser interpretado como manha. O rompimento com a tal “imprensa burguesa” deve ser perceptível. Se adotar a tática de que o bom cabrito não berra, estará fazendo o jogo daqueles que deveria condenar.

Xico Sá deve a seus companheiros de profissão e a seus leitores a íntegra do texto embargado (ver abaixo). Protesto na esfera da comunicação pede a boca no trombone. Com meia-boca não se vai a Roma.
***
Em tempo: Às 19h40 de segunda-feira (20/10), a ombudsman da Folha publicou em seu blog a resposta de Xico Sá à sua coluna de domingo, bem como a íntegra do texto do jornalista vetado pelo jornal. Abaixo, a reprodução. (A.D.)
Xico Sá escreve à ombudsman
O jornalista e escritor Xico Sá enviou mensagem autorizando a publicação da coluna que acabou motivando seu pedido de demissão da Folha. O colunista conta que estava em viagem na Bahia, razão pela qual não se manifestou antes, e aproveita para esclarecer alguns pontos de vista divulgados em mensagens nas redes sociais.

Confira primeiro a mensagem e depois o texto original, na íntegra. (Vera Guimarães Martins)

Mensagem de Xico Sá
“Li a sua coluna de ontem e achei muito correta.
No que diz respeito aos tuítes de maldizer, quando faço desabafos, foi tudo no tom do “jus esperneandis”, para usar o jurisdiquês.

Havia publicado, nesse sentido, um tuíte com um velho grafite do anarquismo espanhol (“Não compre jornal, minta você mesmo”), dai a sequência da mentira, quando digo que menti pelos veículos a quem prestei serviço.

Obviamente que jornalismo é uma versão (mais próxima possível) da realidade. É nesse sentido que coloco a mentira.

Minhas reportagens sempre foram muito concretas e na grandisissíma maioria das vezes com prova material do crime a tiracolo: revelava, por exemplo, onde estava PC Farias, e dias depois trazia o homem (rs) preso de Bancoc ao Brasil. Revelava que os empreiteiros de SP estavam fazendo bingo para decidir sobre licitações fraudadas e levava o fotógrafo para fazer a foto do telhado ao lado, além de fornecer o resultado da jogatina. Quase sempre assim.

Tomara que o leitor desta Folha tenha alguma memória disso, e a minha biografia, como no seu acertado temor ao final da coluna, não fique manchada.

Sobre o texto vetado no caderno de “Esporte”, não se trata de proselitismo político nem tinha como objetivo declaração de voto. Escrevi uma crônica chamada de “Fla x Flu eleitoral”.

Tratei do desequilíbrio na cobertura dos jornais, sempre a favor de uma candidatura “x”.

Defendo que os jornais brasileiros deveriam adotar a linha de jornais americanos, que declaram seus candidatos, ficaria um jogo mais limpo com leitores.

O mesmo vale para os colunistas tendenciosos. Nesse contexto, pedi perdão a Bakunin (anulei o voto várias vezes por causa do pendor anarquista histórico) e, com humor típico da minha coluna, abri o voto em Dilma. O que julguei uma atitude mais limpa com meus leitores.

Recusei publicar o texto em muitos veículos que me procuraram, inclusive veículos concorrentes da Folha. Também não quis publicá-lo nas redes sociais. Em respeito a você, libero a crônica, caso deseje publicar, na íntegra e com o título, no seu espaço e somente no seu espaço.

Saudações gutenberguianas
Fla-Flu eleitoral

Se no primeiro turno foi Brasileirão de pontos corridos, agora, camarada, é Copa do Brasil, mata-mata

Amigo torcedor, amigo secador, mesmo com a obviedade ululante de PT x PSDB, eleição não é Fla-Flu, eleição não é sequer Atlético x Cruzeiro, Galo x Raposa, para levar a contenda para as Minas Gerais onde nasceram os dois candidatos do segundo turno.

Eleição não é um dérbi clássico como Guarani x Ponte Preta, eleição é tão mais rico que cabe, lindamente contra o voto, meus colegas anarquistas na parada, votar simplesmente no nada, nonada, como nos sertões de Guimarães Rosa, sempre na área.

Fla-Flu, embora exista antes do infinito e da ideia de Gênesis, nego esquece em uma semana. Futebol nego esquece no 25º casco debaixo da mesa, afinal de contas, como dizia meu irmão Sócrates Brasileiro, futebol não é uma caixinha de nada, futebol é um engradado de surpresas sempre dividido com amigos de todos os clubes.

Doutor Sócrates Brasileiro que foi mais pedagógico, um Paulo Freire da bola, com a Democracia Corintiana, do que muitas escolas. Doutor Sócrates, Casagrande e Vladimir nos ensinaram mais sobre a ideia grega do “poder do povo e pelo povo” do que toda aquela imposição de Educação Moral e Cívica dos generais das trevas.

Foi-se o tempo que viver era Arena x MDB, era Brahma x Antarctica. Até porque eles hoje são a mesma coisa, a mesma fábrica, a mesma Ambev que botou dinheiro de monte até na Marina evangélica –la não queria, mas o tesoureiro, talvez neopentecostal, pegou do mesmo jeito de todo mundo, vai saber, já era.

Eleição é coisa de quatro anos, no mínimo, pois até quem diz que não quer mais compra um aninho de luxúria e sossego iluminista em Paris, como já vimos no caso do FHC, comprovado em um dos maiores furos desta Folha, reportagem do grande Fernando Rodrigues, parlamentar comprado a preço de mensalão superfaturado.

Cadê a memória, a mínima morália, como diria Adorno, jornalismo safado?

Quem dera eleição fosse apenas o Fla-Flu que dizem. Quem dera fosse apenas um cordel que poderia ser resumido na peleja do playboy danadinho contra a mulher durona. É tudo mais complexo, ainda bem, e se no primeiro turno foi Brasileirão de pontos corridos, agora, camarada, é Copa do Brasil, mata-mata.

Como sou favorável à linha dos jornais americanos que declaram voto, coisa que meu jornal aqui teimosamente não encampa, queria deixar claro da minha parte: voto Dilma, apesar do meu pendor anarquista. Perdão, Bakunin, mas meu voto é contra a imprensa burguesa.

Digo que o jornal que me emprega não encampa e justiça seja feita: nunca me proibiu de dizer nada. Nem no impresso nem no blog. “Bota pra quebrar, meu filho”, lembro do velho sr. Frias nessa hora, que cabra!

Seria legal que todos os jornalistas, que têm lado sim, se declarassem. Quem se apresenta para tornar as coisas mais iluminadas?


obs_logo 2008O Brasil faturou US$ 53,5 bilhões de janeiro a agosto com a exportação de manufaturados, 7% menos que um ano antes. Ineficiência é a explicação principal – um problema tanto da indústria quando das condições gerais da economia. A excessiva dependência do mercado argentino apenas confirma essa avaliação, sustentada também pelas comparações internacionais. A balança comercial tem sido salva principalmente pelas vendas do agronegócio.

Em todas as classificações internacionais o Brasil tem aparecido muito mal. A mais recente foi divulgada há poucos dias. Em dois anos o país perdeu nove posições no ranking de competitividade do Fórum Econômico Mundial. Passou da 48ª posição no relatório de 2012 para a 57ª, na deste ano. As duas notícias saíram, isoladamente, no começo da primeira semana de setembro.

No fim da semana o governo divulgou os números de uma nova pesquisa sobre a educação nacional. O ensino básico melhorou um pouco, mas sem atingir as metas para os anos finais do ensino fundamental (da 5ª à 9ª séries). Além disso, o ensino médio piorou em 15 estados. Todos os jornais deram destaque ao assunto. O Globo deu manchete: “Ensino médio piora em 16 estados e fica abaixo da meta”.

Editores dos grandes jornais têm dado importância a assuntos de educação. Ninguém pode acusá-los de desprezar o assunto. Mas a maior parte do noticiário continua saindo fragmentada, como se raramente alguém se dispusesse a juntar as pontas para mostrar a relação entre os fatos. Reuniões de pauta, quando os editores se encontram para discutir o jornal do dia, poderiam servir para a articulação das várias coberturas. Pelo resultado, têm passado longe dessa preocupação.

Oportunidade perdida
As três notícias são obviamente vinculadas. O enfraquecimento comercial da indústria, a perda de posições no ranking de competitividade e a baixa qualidade do ensino são capítulos da mesma história.

No ranking do Fórum Econômico, o Brasil até melhorou no quesito educação fundamental, mas o avanço foi do 88º para o 77º lugar, num conjunto de 144 países. Ou seja: educação está abaixo da média dos quesitos, quando se avalia o poder de competição do Brasil. Ensino e qualidade da mão de obra geralmente puxam para baixo a nota brasileira. Entre os itens negativos também se destacam a infraestrutura, a ineficiência estatal, as condições institucionais e a tributação.

A fragmentação desse conjunto de informações seguiu o padrão habitual. O trabalho de juntar pedaços e organizar uma história quase sempre depende, nos jornais brasileiros, de uma pauta especial. Poderia ser feito no dia a dia, às vezes com o acréscimo de umas poucas palavras ou de um pequeno quadro complementar. Mas, para isso, repórteres, pauteiros e editores teriam de olhar o conjunto do noticiário, em vez de se concentrar numa lista de itens descontínuos.

No fim da primeira semana de setembro, exatamente no dia 7, uma dessas matérias especiais juntou vários pedaços do problema da competitividade. O material saiu no Estado de S.Paulo, com chamada na primeira página: “Produzir no Brasil custa, em média, 33,7% mais”. A reportagem, publicada no caderno de Economia, percorre o conjunto dos desafios. Uma lista parcial inclui “carência de infraestrutura, falta de produtividade, elevada carga de impostos, mão de obra deficiente e uma base tecnológica atrasada”.

Não seria possível, nem teria sentido, lembrar todos esses detalhes todos os dias, mas custaria pouco esforço e gastaria pouco espaço acrescentar umas poucas ligações quando o noticiário apresenta assuntos obviamente vinculados. A primeira semana de setembro foi rica de oportunidades para esse tipo de trabalho. Faltou aproveitá-las e presentear o leitor com um cenário mais claro e mais organizado.

***
Rolf Kuntz é jornalista

 


ELEIÇÕES 2014

O poder dissimulado no luto

Por Luciano Martins Costa em 15/08/2014 na edição 811

O tabuleiro da política brasileira começa a se reorganizar, mesmo antes que sejam compostos os restos mortais do ex-governador Eduardo Campos para a cerimônia fúnebre. Ainda sob o efeito da tragédia e do espanto, as duas forças hegemônicas do sistema partidário fazem os primeiros movimentos para obter o máximo proveito da tragédia, sem que pareçam estar interessadas no espólio do candidato desaparecido. 

O que vai na cabeça dos políticos é parte do mistério insondável que encobre a maior das paixões humanas – o desejo de potência. Portanto, pode-se apenas fazer conjecturas sobre o propósito que se oculta nas declarações e nas iniciativas que vêm a público.

Mais simples é observar como a imprensa, na qualidade de instituição que personifica o desejo de poder de uma classe especial de cidadãos, tenta se manter como protagonista relevante nesse jogo, sem no entanto explicitar seus interesses. 

Para os dois extremos em que se divide a política nacional, a situação é clara: ao Partido dos Trabalhadores e seus aliados interessa que Marina Silva, provável substituta de Eduardo Campos na cabeça de chapa do Partido Socialista Brasileiro, continue sendo Marina Silva, o que equivale a dizer que ela tem potencial para reduzir o número de votos nulos e em branco, principalmente entre os eleitores mais jovens, e canibalizar o patrimônio do senador Aécio Neves, do Partido da Social Democracia Brasileira, mas sem ameaçar as chances de Dilma Rousseff.

Para o PSDB, trata-se de usar Marina Silva para assegurar o segundo turno, com Aécio na disputa.

Dentro desse quadro aparentemente simples, porém, cruzam-se muitos e complexos elementos que os atores tentam administrar com cautela. Um deles é a própria natureza da aliança que aproximou Marina Silva e Eduardo Campos: pode-se dizer que a principal conexão entre eles é que compartilharam uma política de sonho, na hipótese de que se pode jogar sem praticar os vícios que são a própria regra do jogo. Diz o editorial do Estado de S. Paulo a edição de sexta-feira (15/8), sobre Campos, que suas qualidades não foram suficientes para infundir substância à “terceira via”.

O velho coronelismo

Vejamos, então, se é possível uma compreensão do protagonismo da mídia tradicional, como instituição coesa e homogênea que pretende manipular os cordões do poder político.

Já se disse aqui que a imprensa hegemônica do Brasil funciona como o Tea Party nos Estados Unidos, uma espécie de sociedade de forças reacionárias que tenta determinar o rumo da política e da economia, mesmo à revelia da vontade manifestada pela maioria. Diante desse tabuleiro, a imprensa precisa alavancar o potencial de Marina Silva, ao ponto de fazê-la crescer o suficiente para provocar um segundo turno, mas evitando que supere Aécio Neves.

Parte dessa tarefa consiste em acalmar as forças do mercado, evitando que pese sobre ela o temor que cercava a primeira candidatura do petista Lula da Silva, em 2002. Para isso, movimenta-se o economista Eduardo Gianetti da Fonseca, autor da proposta de política econômica da chapa do PSB: ele ganha destaque por afirmar que há “uma forte convergência” entre o projeto feito para Eduardo Campos e a doutrina do PSDB.

O Globo, que não possui a mesma habilidade para dissimular os interesses de seus controladores como o Estado de S.Paulo, veterano de centenárias batalhas políticas, ou a Folha de S.Paulo, com seu ousado pragmatismo, vai direto nas canelas: “PT pressiona para rachar o PSB de Eduardo Campos”, diz a manchete do jornal carioca. O núcleo da notícia é a interpretação do jornal para conversas protocolares da presidente Dilma Rousseff e do ex-presidente Lula da Silva com o dirigente do PSB, Roberto Amaral, que deverá conduzir o processo de substituição do candidato falecido na chapa de seu partido.

O interessante é que todos afirmam que não querem discutir política antes dos funerais, mas não se fala de outra coisa a não ser política. Até mesmo do núcleo familiar do falecido candidato brota material jornalístico apresentando seu filho mais velho, João Campos, como possível herdeiro político da dinastia inaugurada por Miguel Arraes, avô do ex-governador.

A foto do jovem de apenas 20 anos, imagem principal na primeira página do Estado de S. Paulo, também publicada com destaque na Folha e no Globo, é a face nova da velha política: à direita ou à esquerda, representa o poder republicano como herança familiar – o velho e confiável coronelismo.

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EDUARDO CAMPOS (1965-2014)obs_logo 2008
O imponderável assombra a imprensa

Por Luciano Martins Costa em 14/08/2014 na edição 811

 Comentário para o programa radiofônico do Observatório, 14/8/2014A morte trágica do ex-governador de Pernambuco Eduardo Campos interrompe o processo político iniciado com a série de entrevistas de candidatos  à Presidência da República no Jornal Nacional da TV Globo. Campos foi surpreendido pela tragédia quando ainda estava celebrando o que considerava um bom desempenho diante da bancada que conta com a maior audiência entre os telejornais. Alguns analistas já ponderavam que esse seria o ponto zero de sua candidatura, empacada em torno de 8% nas pesquisas de intenção de voto.

Curiosamente, a fatalidade pode alavancar para um novo patamar a alternativa representada por Eduardo Campos, se seu partido, o PSB, optar pela solução natural de colocar na cabeça de chapa a ex-ministra Marina Silva.

Marina partiria com um patrimônio de 20%, equivalente ao melhor índice alcançado pelo outro candidato oposicionista, Aécio Neves, do PSDB, com toda a visibilidade e o apoio explícito que lhe dá a imprensa.

Em agosto do ano passado, quando ainda havia a possibilidade de se lançar candidata à Presidência à frente da Rede Sustentabilidade, a ex-ministra chegou a alcançar 26% numa pesquisa Datafolha, conforme lembra a Folha de S.Paulo na edição de quinta-feira (14/8). Mesmo com o naufrágio de seu projeto partidário, e colocada em segundo plano na chapa do PSB, ela aparecia nas sondagens como detentora de um potencial mais promissor do que o de Eduardo Campos.

O horário do acidente, ocorrido na manhã de quarta-feira (13), deu à mídia um longo período para especular sobre as circunstâncias em que se deu a tragédia, e ainda sobrou tempo para avançar em especulações em torno das consequências políticas da morte do ex-governador. Ao longo do dia, informações desencontradas falavam de choque com um helicóptero, versão sustentada pela TV Bandeirantes, e até mesmo de um possível atentado, hipótese anunciada ao vivo por um imaginoso apresentador da TV Record.

Coube à GloboNews a primazia de inserir apostas apressadas sobre o cenário político no clima de comoção, com uma entrevista afoita do senador Christóvam Buarque (PDT-DF), seguida por palpites de comentaristas da emissora. Diante do evento inesperado, os especialistas em generalidades ficaram sem referências.

Pesquisa em clima de velório

Na quinta-feira (14), passado o choque, analistas credenciados junto à mídia tradicional buscam elementos para projetar um novo cenário na disputa eleitoral. A tendência é a de apostar que a provável indicação de Marina Silva para a cabeça de chapa do PSB tiraria votos em igual proporção da presidente Dilma Rousseff, candidata à reeleição, e do senador Aécio Neves, segundo colocado nas pesquisas. Apenas um entre os principais observadores da política, o colunista Elio Gaspari, sugere a hipótese de uma aliança entre Aécio e Marina Silva.

A maioria dos analistas usa como referência principal os indicadores das pesquisas mais recentes, eventualmente comparando com a eleição de 2010, quando a ex-ministra do Meio Ambiente empolgou uma parte considerável do eleitorado mais jovem. Entrevistado pelo Globo, o analista e porta-voz do Datafolha, Mauro Paulino, anunciou que o instituto já estaria colhendo opiniões sobre a mudança do cenário, mas considerava arriscada qualquer insinuação.

Márcia Cavallari, analista do Ibope, também ouvida pelo jornal carioca, disse que o instituto não vai fazer pesquisa em cima da tragédia e que a próxima sondagem só vai ser realizada em setembro.

Se os pesquisadores consideravam imprevisível o resultado da eleição com a presença de Eduardo Campos, seu desaparecimento pode produzir uma mudança radical na perspectiva do eleitorado, observam os especialistas. No entanto, a leitura das declarações de alguns protagonistas de peso indica que, se lançada candidata, Marina Silva tem grandes chances de personificar com mais densidade o desejo de mudança que aparece, ainda que difuso, mas de forma consistente, em todas as pesquisas feitas a partir de junho do ano passado. Essa perspectiva deslocaria o candidato do PSDB para uma posição marginal, com menos chance de ver crescer seu eleitorado.

A morte de Eduardo Campos rompe uma situação nova que se desenhava com a série de entrevistas ao telejornal da Rede Globo, e que poderia se consolidar com a sequência de sabatinas e debates programados pela mídia.

O forte apelo emocional da tragédia será explorado com cautela pelos contendores, porque o ex-governador de Pernambuco, embora na oposição, tinha fortes vínculos com o partido que controla o Planalto. Vivo, ele era um coadjuvante de peso; morto, se transforma no grande cabo eleitoral.

Romildo Jesus


A alternativa comunitária no jornalismo contemporâneo

Por Carlos Castilho em 11/08/2014
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Cento e trinta profissionais perderam seus empregos na Rede Brasil Sul (RBS), parceira da Rede Globo no sul do Brasil. E nos Estados Unidos, a Associação Americana de Editores de Jornais (ASNE) revelou que 1.300 jornalistas norte-americanos foram demitidos por empresas jornalísticas durante o ano de 2013.

Os dois fatos mostram a manutenção da tendência das empresas de comunicação em cobrir perdas operacionais com o enxugamento de redações, uma política que já foi comparada inúmeras vezes ao ato de dar um tiro no próprio pé. Já se tornou um lugar comum afirmar que a minimização das redações e a substituição de profissionais experientes por recém-formados implica uma queda de qualidade na produção jornalística, o que inevitavelmente se reflete na perda de leitores e redução da receita dos jornais e revistas.

No caso americano, o desemprego entre jornalistas no ano passado foi menor do que em 2012, quando chegou a 2.600 demitidos em 12 meses. Mas se tomarmos em conta os números desde 1989, a redução do número de empregos em redações jornalísticas nos Estados Unidos chega a espantosos 35%, um índice que a própria ASNE considera preocupante.

A insistência no recurso à redução da força de trabalho nas redações mostra a dificuldade dos executivos de empresas jornalísticas em aceitar o ajuste de expectativas financeiras nesta transição da era analógica para a digital no setor da informação e comunicação. Acostumados a lucros líquidos da ordem de até 30%, os donos de conglomerados jornalísticos qualificaram inicialmente como transitória a queda abrupta de lucratividade na virada do século; com isso, perderam tempo precioso para ajustar-se à nova realidade e agora ficaram sem reservas para enfrentar a mudança que é permanente e irreversível.

Ninguém tem ainda uma fórmula para resolver a crise do modelo de negócios das empresas, mas os jornalistas demitidos já começam a vislumbrar alternativas e elas se concentram em duas áreas: os nichos informativos especializados e o jornalismo comunitário. Nenhuma delas oferece salários milionários, mas pelos dados mais recentes, especialmente nos Estados Unidos e na Europa, os profissionais estão mais preocupados em explorar novas oportunidades do que com o contracheque.

Os nichos informativos são atraentes na medida em que o profissional pode explorar de forma individual – ou com um reduzidíssimo número de parceiros – a experiência, dados, informações e contatos acumulados durante o trabalho em redações. Muitos estão vendendo matérias jornalísticas para as mesmas empresas que os demitiram. O problema é que a consolidação financeira de um nicho informativo demora tempo, o que vai exigir paciência e uma poupança prévia para sobreviver. Mas depois de consolidado, o nicho informativo é financeiramente estável, como demonstram os casos de profissionais que renunciaram a empregos sólidos para criar o seu próprio negócio.

Mas a maioria dos desempregados está procurando uma forma social de sobreviver à perda do emprego com garantias trabalhistas. Trata-se do jornalismo comunitário, uma tendência em franca ascensão na imprensa norte-americana, alimentada pela emergente preocupação das pessoas em resolver problemas locais diante da ineficiência e gigantismo da máquina administrativa estatal. O ressurgimento da pequena imprensa local, que está sendo estudado aqui no Brasil pelo projeto “Grande Pequena Imprensa”, do Instituto Projor/Observatório da Imprensa, gerou um aumento da vendagem das publicações locais da ordem de 2,78% em 2013, apesar da crise na indústria da comunicação jornalística.

Em agosto deste ano, a Columbia Journalism Review identificou um forte crescimento no número de iniciativas de jornalistas na captura, processamento e análise de dados municipais, um filão do jornalismo em base de dados que estava inexplorado. Esta emergente tendência revive a ênfase no patrulhamento das gestões municipais diante da preocupação dos cidadãos com a aplicação dos recursos pagos em impostos.

Ainda segundo a CJR, jornais locais como o The Plain Dealer, da cidade de Cleveland, no estado de Ohio (EUA), já produzem quase metade de sua pauta diária de notícias a partir da análise de dados da prefeitura. A produção de notícias a partir de estatísticas está sendo realizada essencialmente por profissionais recém-formados e por jornalistas experientes, uma combinação de talentos que tem se revelado fundamental para o aumento dos acessos ao site do jornal e na vendagem em bancas.

Na Holanda, o jornal Dichtbij transformou-se num fenômeno do jornalismo local ao acumular lucros nos últimos dois anos, apesar do ceticismo dos executivos centrais do conglomerado Telegraaf Media Group (TMG), que controla a publicação. Criado em 2010, o Dichtbij, um dos 44 jornais locais do grupo, foi deficitário até 2012, quando passou a colher os frutos de uma controvertida estratégia publicitária. O jornal oferecia dois anos de publicação grátis para anunciantes se eles firmassem um contrato de cinco anos, os três últimos com pagamentos mensais.

Hoje o Dichtbij tem 30 funcionários, metade deles jornalistas, e deixou de ser um peso dentro das finanças do TMG, cujos executivos já começaram a copiar o mesmo esquema para outros jornais locais do grupo.

Aqui no Brasil o jornalismo comunitário ainda é pouco valorizado, apesar da experiências significativas como O TREM Itabirano, em Itabira, Minas Gerais ou o Voz de Rio das Pedras, no Rio de Janeiro. Há várias outras iniciativas que ainda não ganharam relevância nacional por falta de circulação de informações sobre o segmento. A troca de experiências neste segmento é vital para a sobrevivência das publicações porque todas podem aprender com os erros e sucessos mútuos.

Para os jornalistas desempregados no Brasil, a alternativa da imprensa comunitária pode ser bem mais do que a busca de uma nova fonte de renda. Pode ser a reinserção da profissão na utilização da notícia na produção de conhecimento socialmente relevante e com ele gerar mais capital social capaz de alavancar o desenvolvimento socioeconômico de comunidades sociais.