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Posted: January 17, 2017 in administração, bbc br_, política

O que presidentes ricos da América Latina fizeram com fortuna quando chegaram ao poder (e as diferenças com Trump)

16 janeiro 2017  com Facebook  Messenger  Twitter com Google+
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Direito de imagem AFP Os presidentes do Panamá, Juan Carlos Varela, do Paraguai, Horacio Cartes e da Argentina, Mauricio Macri e os ex-presidentes do Chile, Sebastián Piñera, do México, Vicente Fox e do Panamá, Ricardo Martinelli

Image caption Presidentes do Panamá, Juan Carlos Varela, do Paraguai, Horacio Cartes e da Argentina, Mauricio Macri e os ex-presidentes do Chile, Sebastián Piñera, do México, Vicente Fox e do Panamá, Ricardo Martinelli

A poucos dias da posse de Donald Trump como presidente dos Estados Unidos, o país discute um problema conhecido há tempos na América Latina, para o bem e para o mal: como evitar o conflito de interesses quando um magnata chega à presidência.

O assunto ganhou força na semana passada, quando Trump apresentou um plano para que suas funções como governante não colidam com os interesses de seu vasto império empresarial.
O republicano tem dentro dos EUA e ao redor do mundo centenas de investimentos em imóveis, marcas e empresas de diferentes setores, o que poderia influenciar suas decisões à frente da maior potência do planeta.

Mauricio Macri junto com sua famíliaDireito de imagem AFP/Getty Images
Image caption Presidente da Argentina, Mauricio Macri acena junto com sua mulher, Juliana, e filha, Antonia

Nesse sentido, na quarta-feira passada, Trump anunciou que passaria o controle de seus negócios a um trust controlado pelos seus filhos mais velhos, mas evitaria vender os bens ou se desfazer das ações na organização que leva seu nome.
A iniciativa foi criticada por especialistas em ética. Eles alertam que, na história moderna dos EUA, nunca chegou à presidência do país um magnata com a quantidade de negócios igual à de Trump.
A falta de transparência sobre sua fortuna é outro problema, acrescentam.
“Algumas das coisas que nos preocupam são coisas que vimos ocorrer em outros países. E eles aprenderam”, diz à BBC Mundo, o serviço em espanhol da BBC, Larry Noble, conselheiro-geral do Campaign Legal Center, uma ONG sediada em Washington.
Sendo assim, como os multimilionários que recentemente se tornaram presidentes da América Latina reagiram ao conflito de interesse?
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Donald Trump em Aberdeen, na EscóciaDireito de imagem Getty Images
Image caption Trump visita seu resort em Aberdeen, na Escócia

Multimilionários latino-americanos
Empresários multimilionários que entram para a vida política estão longe de ser uma novidade na América Latina.
O presidente argentino Mauricio Macri, o paraguaio Horacio Cartes e o panamenho Juan Carlos Varela são três empresários ricos que atualmente exercem a presidência de seus respectivos países.

Horacio CartesDireito de imagem Getty Images
Image caption Presidente do Paraguai, Horacio Cartes faz pronunciamento na ONU

E se acrescentarmos à lista os que terminaram seus mandatos recentemente, temos o chileno Sebastián Piñera, o mexicano Vicente Fox e o também panamenho Ricardo Martinelli.
No espectro político, todos eles são identificados com a centro-direita, fizeram de seu sucesso empresarial sua plataforma eleitoral e também se beneficiaram do descontentamento de muitos com a política tradicional, exatamente como Trump nos EUA.
“Mas as opiniões sobre eles não são unânimes: enquanto uns os admiram pelo patrimônio que acumularam, outros desconfiam deles”, disse à BBC Mundo o historiador chileno Joaquín Fermandois, em entrevista recente.

Twitter
Image caption Sócios de Trump na Índia viajaram aos EUA para felicitá-lo pela vitória

‘Nem perto’
Quando anunciou sua candidatura presidencial, Macri declarou bens no valor de US$ 5,5 milhões (R$ 17,7 milhões), que incluíam participações em várias sociedades, depósitos bancários nos EUA e na Suíça, duas propriedades e um terreno rural de 33 hectares no Uruguai.

Juan Carlos VarelaDireito de imagem AFP
Image caption Juan Carlos Varela governa o Panamá desde 2014 e já foi vice-presidente e chanceler

Antes de dedicar-se à política e presidir o clube de futebol Boca Juniors, o mandatário ocupou postos executivos em companhias do poderoso conglomerado automobilístico e de construção criado por seu pai, Franco Macri.
E meses depois de chegar à presidência argentina, em dezembro de 2015, Macri transferiu a administração de suas ações em diversas empresas bem como de seus imóveis a um “blind trust” (em português, “confiança cega” ─ a medida implica em nomear um gestor independente para gerir, sem qualquer interferência do dono, todos seus bens e negócios).
Por esse sistema, ele só poderá retomar o controle de seus negócios seis meses depois de terminar seu mandato.

Shinzo Abe com Ivanka TrumpDireito de imagem Reuters
Image caption Filha de Trump, Ivanka Trump participou de reunião entre seu pai e primeiro-ministro do Japão, enquanto acertava detalhes de negócio com empresa japonesa

Piñera, do Chile, fez algo semelhante com uma parte de seus investimentos antes de chegar à presidência em 2010.
Naquela ocasião, de acordo com a revista americana Forbes, ele tinha uma fortuna estimada em US$ 2,2 bilhões (R$ 7 bilhões), fruto de diversos negócios e companhias em seu nome.
Mas Trump não fez isso. Ao nomear os filhos como gestores de seus negócios, seu “blind trust” não é tão restritivo e, portanto, pode gerar conflito de interesse.
“Isso não é um blind trust – nem sequer está perto disso”, disse Walter Shaub, diretor do Escritório de Ética do Governo dos EUA, sobre o plano de Trump.
“A única coisa que tem em comum com um blind trust é a palavra trust”, ironizou.

Trump e o AprendizDireito de imagem Getty Images
Image caption Trump ficou famoso como apresentador de reality show na TV dos EUA

Melhor opção
Apesar das precauções que tomaram, Macri e Piñera também se viram cercados de polêmicas relacionadas às suas fortunas.

Sebastián PiñeraDireito de imagem Getty Images
Image caption Sebastián Piñera governou o Chile entre 2010 e 2014

No caso de Macri, a divulgação dos “Panama Papers” o associou no ano passado a empresas nas Bahamas que não haviam sido incluídas em sua declaração de bens antes de assumir a Presidência, pelas quais seu pai se declarou responsável perante a Justiça argentina.
Além disso, a imprensa argentina diz que no blind trust de Macri foi incluída menos da metade de sua fortuna verdadeira.
No Chile, surgiram dúvidas na semana passada sobre o quão “cego” teria sido o blind trust de Piñera. Isso porque, segundo autoridades, ele poderia, em teoria, acessar informações sobre suas operações.

Trump junto da advogada da Organização Trump, Sheri DillonDireito de imagem AFP/Getty Images
Image caption Trump junto da advogada da Organização Trump, Sheri Dillon, em entrevista a jornalistas na quarta-feira passada

A advogada da Organização Trump, Sheri Dillon, acrescentou que blind trusts têm pontos fracos.
“O presidente Trump não pode ignorar que é dono da Trump Tower”, disse ela em entrevista a jornalistas.
Na opinião de vários especialistas, a melhor opção para o presidente eleito seria liquidar todos seus ativos e então depositar o dinheiro em um blind trust, alheio a seu controle.

Torre Trump na Cidade do PanamáDireito de imagem AFP
Image caption Trump tem negócios em vários países, inclusive no Panamá
Riqueza e informação

Ironicamente, o fato de que na América Latina costuma faltar transparência sobre os bens dos presidentes não impede que haja conflito de interesse.
Ao assumir a presidência do Panamá em 2014, Varela divulgou sua declaração de bens, o que havia prometido durante a campanha eleitoral.
Nela, ele dizia que detinha US$ 25 milhões (R$ 80,5 milhões) em ações de diversas empresas, além de contas bancárias e imóveis.
Varela apresentou o documento como algo atípico para um presidente do país, desafiando seu antecessor, Ricardo Martinelli, que também é sócio e diretor de várias companhias, a fazer o mesmo.
Mais uma vez, Trump se distingue de seus antecessores: ele se negou a revelar sua declaração de imposto de renda, que daria uma ideia do lucro de suas empresas.
O magnata limitou-se a preencher um formulário do governo federal indicando que sua fortuna era de pelo menos US$ 1,5 bilhão (R$ 4,8 bilhões).
Mas Noble acredita que a informação encontrada ali seja restrita.
“A solução encontrada por ele foi, então, pôr os negócios sob o controle de seus filhos”, diz o especialista.
“Indicamos que em outros países isso havia sido um problema, que às vezes a forma pela qual um líder de um país enriquece é enriquecendo sua família”, acrescenta.
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