Janis in Rio -forever! ___

Posted: July 17, 2016 in Uncategorized

 

 Summertime: Janis
Joplin em Copacabana

Trip / Janis Joplin / Copacabana / Música

No verão de 70, a cantora desembarcou no Rio para se divertir no Carnaval, tomar sol e se afastar da heroína. Não deu muito certo – Janis bebeu como louca, transou na praia e quase foi parar na cadeia
por 01.08.2000

Exclusivo: Trip publica pela primeira vez as fotos perdidas do topless de Janis Joplin em Copacabana, no verão de 1970. No auge da ditadura, praticamente desconhecida no Brasil, a cantora desembarcava no Rio de Janeiro para se divertir no Carnaval, tomar sol e se afastar da heroína. Não deu muito certo – Janis bebeu como uma louca, transou na praia, cantou num inferninho carioca e quase foi parar na cadeia.

Foto: Ricky Ferreira
Ela foi eleita o garoto mais feio do colégio. Desde mocinha, enfiava o pé na jaca com convicção: uísque, maconha, anfetaminas, ácido, tabaco, vodca, cocaína, metadona, heroína e biscoito com marmelada (como você vai descobrir logo adiante). O único namorado fixo que teve morreu no Vietnã. Ela arrancava as roupas no palco e costumava reclamar que, depois de “fazer amor” com mil pessoas num show, voltava para seu quarto e dormia sozinha. Janis seria a mais perfeita tradução do lema de Lobão: “Prefiro viver dez anos a mil do que mil anos a dez”.
Quando veio passar o Carnaval no Rio de Janeiro, para espantar o blues e dar um tempo na heroína (que, na época, não existia por aqui), Janis Joplin estava prestes a lançar sua obra máxima – Pearl, disco lançado postumamente em 1971. Ela morreria oito meses depois de sua passagem pelo Rio, aos 27 anos – mesma idade em que Jim Morrison, Jimi Hendrix e Brian Jones também se despediram da Terra.

Foto: Ricky Ferreira
Até se poderia dizer que ela passava por um momento feliz quando posou para as lentes do fotógrafo carioca Ricky Ferreira, em fevereiro de 1970. Em entrevista à Trip, o fotógrafo Ricky e o cantor Serguei, dois de seus cicerones brasileiros naquela época, revelam a glória e o vexame de uma das maiores cantoras de todos os tempos, que passou praticamente despercebida em território nacional. Fez um obscuro show num inferninho de Copacabana, foi expulsa de um hotel e quase foi presa na praia, incidentes que a levaram a declarar à revista Rolling Stone, depois da viagem: “Se você tem cabelo comprido, te expulsam de um lugar e nunca deixam entrar. Os tiras estupram as pessoas, colocam cães no saco dos caras. O melhor mesmo foram umas noites em que cantei com uns amigos num puteiro”. Com vocês, uma das poucas mulheres que, literalmente, peitaram a ditadura Médici. O fotógrafo Ricky Ferreira* hospedou Janis em seu apartamento e foi seu guia por bocadas e baladas cariocas. A seguir, ele relembra insólitas histórias regadas a muito Fogo Paulista.

Foto: Ricky Ferreira Como foi seu encontro com Janis Joplin? Cruzei com ela na Avenida Atlântica e a reconheci imediatamente. Aí, fui conversar com ela.
Aqui ninguém a reconhecia? Muito pouca gente. Poucos jornalistas e alguns artistas e músicos. Quando a vi, ela estava chorando. Tinha acabado de ser expulsa do Copacabana Palace (por ter nadado nua na piscina). Era Carnaval e não havia hotéis disponíveis, ela não sabia pra onde ir. Convidei-a para vir para minha casa, um quarto-e-sala simples no Leblon. Ela aceitou na hora. Aí, começou um delírio total de drogas, álcool, de tudo…
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Sexo também? Não. Nunca tive nada com ela. O que queria era agradá-la. Aquela coisa: quer fumo? Vamos arrumar. Mas ela não gostava de maconha, ficava paranóica. O que mais curtia era álcool e heroína. Cheguei a ir à embaixada americana dizendo que tinha uma pessoa que não se sentia bem e pedi heroína, mas fui expulso pelo médico de plantão. Então arrumamos Mandrix, barbitúrico que ela misturava com álcool. Ela levantava e já tomava uma garrafa de um litro de licor de ovos Dubar, uma coisa grossa e enjoativa. Aí, mandava umas pílulas. Lá pelo meio-dia, entrava no Fogo Paulista (tipo de cachaça industrializada). Daquilo iam garrafas… uns três litros. Depois, íamos à praia, a garrafa junto. Fomos muito à praia da Macumba (Recreio dos Bandeirantes). Em plena ditadura, 1970, ela fazia topless. Não deu outra: saímos da praia presos por atentado ao pudor. Depois, o velho jeitinho brasileiro ajudou a nos liberar.


Foto: Ricky Ferreira

E as baladas carnavalescas? Bom, explode o Carnaval. Quando esteve hospedada no Copacabana Palace, foi convidada para um camarote do Municipal. Ela não colocou fantasia: foi de turbante, óculos redondos, pantalonas, uma camisa cheia de miçangas, colares e pronto, já estava fantasiada. Quando subimos numa passarela que atravessava a Cinelândia, as bichas enlouqueceram: “O que é aquilo? Homem, mulher, bicha ou travesti?”. Naquela época não tinha travesti, e como ela tinha chumaços debaixo do braço, ninguém identificava. Janis achava que estava fazendo um sucesso danado…

A imprensa cobriu o baile? Para você sentir o clima, o Jerry Adriani era um dos caras que entrevistavam as celebridades. Fui apresentando a Janis para o Jerry, porque o cara era da Jovem Guarda e não sabia nada de rock’n’roll. E ele veio: “Janis, quais foram as suas impressões do Carnaval carioca?” Ele nem sabia quem era. Nem a Globo, nem a Veja, nem ninguém. Chegamos ao camarote: “Estou aqui com a Janis Joplin, que foi convidada”. O cara olhou pelo buraquinho, viu aquela mulher estranha e ouço uma outra voz de lá: “É boa?” E o cara: “Não, é um dragão!”. A outra voz mandou: “Mulher feia aqui não entra!” Fomos barrados. Janis entendeu tudo, porque maluco não tem barreira de língua, e se ofendeu profundamente. Desceu, comprou uma garrafa de champanhe, bebeu tudo e atirou a garrafa lá em cima, no camarote. A garrafa se espatifou nas pessoas e nós saímos. Ela decepcionada, aos prantos. O Carnaval acabou ali.


Foto: Ricky Ferreira

O que mais rolava no apartamento? Meu apartamento era muito hippie para a época. Eu tinha uma coleção de espelhos antigos e no meio ficava a cama. Uma vez ela estava de topless conversando comigo e se insinuou num beijo. Na hora, travei e recusei. Ela deu uma recuada e deitou na cama. Ela gostava muito de comer biscoito Maria com marmeladas, talvez para compensar a falta de glicose da bebida. Aí, ela se levantou e perguntou: “Você está com medo de mim porque sou uma superstar ou o teu negócio é outro?”. Bicho, quando ela falou aquilo, olho no espelho e vejo que tem quatro bolachas com marmelada grudadas nas costas dela. Aí, você me desculpe, não há pau que levante (risos). Hoje escuto as pessoas dizerem que namorei a Janis. Mas isso nunca rolou. Ela era extraordinária, cantava coisas incríveis no chuveiro, tinha os mais diferentes tipos de vozes, uma sensibilidade à flor da pele, uma personalidade engraçadíssima, eu ria o dia inteiro com ela. Um dia, ela morgou, caiu dura e dormiu na areia em Copa. Se queimou inteira nas costas. Voltou para casa um camarão: com uma puta febre, insolação, a pele toda descascando, saindo em pedaços imensos… Ela lotava os cinzeiros de pele (risos).

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Onde vocês iam à noite? Percorríamos o underground, ela não queria nenhum lugar da moda, careta. Em Copacabana, fomos a uma boate de prostitutas, marinheiros e gringos. Lá ela encontrou o Serguei (ler box). Ele estava cantando com uma orquestra cafonérrima e a reconheceu. Parou tudo, declarou “senhoras e senhores, estamos com a maior cantora de todos os tempos”, e a chamou para o palco – uma coisa super fuleira, um lugar horroroso. Então, ela mandou a orquestra parar e cantou “à capela”. Meu amigo, foi um negócio de arrepiar… tão impressionante que todos os marinheiros, putas e cafetões mandaram drinks para a nossa mesa. Bebemos até cair!

Foto: Ricky Ferreira

Depois disso ela saiu da sua casa? Não, continuou. Meu apartamento quase pegou fogo: ela dormiu com uma vela acesa que lambeu a cortina. Bem, a destruição tinha tomado conta, era comida, cigarro, garrafas, um caos, você pode imaginar. Aí pintou um americano hippie, ela enfiou na cabeça que queria ir pra Bahia de motocicleta com ele. Mas perdeu a moto no caminho. No meio dessa loucura, tentei organizar um show com ela, mas nunca rolou. Ela desbundou total e não conseguiu cantar nada. A verdade é que ela estava muito mal…

Emocionalmente? Ah, ela sabia que era um gênio. Podia estar doidona, mas era consciente de seu papel como artista, sabia que era maravilhosa. Só que tinha um lado depressivo, de auto-estima baixa. Foi super rejeitada em Port Arthur, Texas, onde nasceu, porque só andava com músicos, a maioria negros. Era frágil, muito angustiada, muito down. Tinha momentos de alegria, ria como menininha, mas era uma pessoa muito sofrida. Agora, imagina essa mulher vir bater no Brasil daquela época! O que devia ser o Brasil pra ela? O que é o Brasil pro americano médio? Cobra na rua, índio de bunda de fora? Imagina, em 1970!

Como ela foi embora? Não me lembro, mesmo. Depois, perdi totalmente o contato. Ela foi um cometa. Meses depois, levei um choque ao saber que ela tinha morrido. Aquela voz era única. Quem consegue, hoje em dia, ouvir um disco inteiro da Janis Joplin? Ela é fortíssima, intensa, visceral. Até hoje, Janis é única.
A Janis de Serguei
O cantor carioca Serguei Bustamante, 68 anos, lenda viva do rock’n’roll brasileiro, conheceu Janis Joplin nos Estados Unidos em 1968. Voltou a encontrá-la naquele verão carioca de 1970. A convite de Trip, ele narra de um jeito meio psicodélico – e muito emocionado – como foi ouvir Janis sussurrar em seu ouvido.
“A gente se conheceu em Long Island, num festival de rock num parque, na época em que eu morava nos EUA. Ela chegou em mim e disse: ‘Você tem muito feeling’. De cara, ficamos amigos. Fui com ela para San Francisco, passei um mês com ela lá. Tivemos uma convivência ótima. Janis tinha mania de tomar suco de laranja, era um ritual, preparava suco toda hora – depois jogava gim. Um dia, ela estava fazendo suco e bateram na porta. Fui ver, era um black power esquisito. Pode abrir, ela falou. Foi assim que conheci o Jimi Hendrix. Sei que eles começaram a discutir muito, depois se beijaram – era um outro estilo de vida, tá me entendendo? Dali a uns dois dias fomos à casa de Jimi, em Los Angeles. Sempre fui muito atirado, dançava, rebolava, ficava fazendo assim com a língua. Aí, a Janis veio e falou para eu parar com aquilo de mostrar a língua, senão aquele cabeludo afundado no sofá ia me enfiar um sunshine na boca. O cabeludo era Jim Morrison. Numa outra festa, no Motel Senegal Boulevard, com Jimi Hendrix, Kris Kristofferson (parceiro de Janis em ‘Bobby McGee’) Jim pediu para Janis fazer um boquete nele. Ela fingiu que ia fazer, mas preferiu atirar a garrafa de whisky na cabeça dele. Jim nem estrilou: ‘Vou tirar uma soneca’, disse. Uns dois anos depois, eu caminhava pela calçada em frente ao Copacabana Palace – naquela época a gente podia andar na Avenida Atlântica sem ser assaltado – quando vejo um casal bem diferente: um loiro alto, bonito, interessante e uma mulher com turbante e saia cigana. Puta que pariu! ‘Janis!’, gritei, e logo nos beijamos na boca. Nessa época, eu cantava num buraco chamado New Holliday, no porão 73 do Leme, Copa. Cantava coisas como ‘Satisfaction’ e ‘Tropicália’, abria o show da Darlene Glória. Quis levar a Janis lá. O gerente, um português, barrou-a na porta: ‘Esta mendiga imunda não pode entrar aqui’. Imagine, num bar de putas a Janis foi barrada! Briguei com o português e ela acabou entrando. Alcione estava cantando ‘Upa neguinho’. A Janis logo sentou e pediu vodca – sabe, quando você toma metadona dá muita vontade de beber vodca, e ela fazia tratamento com metadona, na época, pra sair fora da heroína. Tinha uma bandinha tocando, subi no palco e falei ‘com vocês, a maior cantora de todos os tempos’. Pedi para os caras a acompanharem, mas eles não sacavam a música, ficaram nervosos. Então ela soltou a voz e cantou ‘Ball and chain’. Meu Deus (Serguei emociona-se, chora)… O canto dela era sublime! A boate toda se levantou. Alcione gritou desvairada. Tony Tornado, que também se apresentava ali, tremia todo, sem camisa. O português se ajoelhou aos meus pés e pediu: ‘Puta que pariu! Como fui barrar essa maluca? Dá na minha cara, que eu mereço!’. Logo em seguida, ela cantou ‘What I’d say’, do Ray Charles. Foi lindo, a glória, uma loucura total. A boate inteira nos mandava bebida. Saí de lá, alcancei ela com o David Niehaus, o tal holandês loiro, já na praia. Uma lua cheia… Você sabe, né, sou um sem-vergonha por natureza: transamos nós três até de manhã. Na verdade, eu estava mais ligado no holandês, aquela bunda branca ao luar, não tinha muita atração nela porque pra mim a Janis era algo inatingível, um ídolo, sensualidade e protesto, tudo. Ela era tudo o que eu queria ser. Mesmo que a gente estivesse próximo, transando, pra mim ela era um ponto de luz perdido no espaço.”

(Depoimento dado a Ronaldo Bressane)Fotos Ricky Ferreira; Edição Ronaldo Bressane

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