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Posted: July 6, 2016 in divulgação, literatura

Aloísio Brandão lança
Desacontecenças, em Salvador

Quadrado pequeno branco Livro de contos do gênero Realismo Fantástico, “Desacontecenças” traz histórias sobre pessoas e fatos que existiram, ou não, na pequena Santana dos Brejos, localizada na Bacia do Rio Corrente, no sertão baiano, nos anos 60 e 70. A cidade é uma ilha cultural regida por outra noção de tempo, espaço e existência, e o livro traz uma compreensão íntima do lugar pelo viés do fantástico lírico.

Desacontecenças” é o nome do livro que o escritor, jornalista e compositor baiano-brasiliense Aloísio Brandão lançará, em Salvador, nesta sexta-feira (08.07.16), a partir das 20 horas, na Confraria do França (Travessa Lydio de Mesquita, 43 – Rio Vermelho. Telefone nº 3019-6548). O livro é uma publiação da Editora Penalux, de São Paulo, e reúne 20 contos longos pertencentes ao gênero realismo fantástico. “Os textos falam de coisas que só puderam ser vistas com olhos de dentro”, tenta resumir o autor.
Aloísio Brandão, sempre, teve um olhar atento às coisas miúdas, às pessoas que foram ficando encantadas, aos fatos que não necessariamente ocorreram e que a quase totalidade da população não conseguiu captar. Brandão deu a tudo isto uma dimensão humana e sobre-humana, reconstruiu tramas e espacialidades e desconectou, muitas vezes, o tempo da cronologia. Acabou trazendo um buquê de histórias fantásticas para dentro do seu livro prenhe de literatura que acaba de sair. A prosa de Brandão é madura, inventiva e tem o condão de surpreender, a cada parágrafo. E mais: incorpora, com grande habilidade e delicadeza, elementos da poesia.
“Estes personagens e fatos nunca se desgarraram de mim, e eu jamais deixei de mergulhar neles, por uma questão de necessidade, pois é onde está o meu umbigo afetivo e cultural”, argumenta o autor. Aloísio Brandão mantém vivos os vínculos com este universo surreal, visitando, várias vezes ao ano, a sua Santana dos Brejos a que ele chama de “estuário do surrealismo”. Diz que não seccionou o cordão umbilical amoroso com a cidade, “que existe, mesmo que não existisse”, explica, como se buscasse dar pistas sobre a concepção dos seus textos.

LABORATÓRIO DO FANTÁSTICO – O autor de “Desacotecenças” lembra que a Santana dos Brejos de sua infância era uma cidade de não mais que 7 mil habitantes completamente vazia de fatos. “O lugar era um verdadeiro laboratório do fantástico e ajudou a fertilizar o meu texto e me pôs na condição de parir personagens, como Álvaro, um rapaz da roça e de vida normal que, certa noite, chega a cavalo à fazenda do padrinho, que estranha a visita inesperada. É o pai do rapaz quem explica, com a maior naturalidade: “Faz mais de um mês que o coração de Álvaro parou de bater, mas ele está bem”. Álvaro, que ao nascer, voltou para o ventre da mãe, foi visto levitando e o seu rosto deu para aparecer em quadros das casas da cidade. “O rosto de Álvaro” é um dos contos que integram o livro.
“A loja de memórias” é outro texto encantador e terno desta publicação de fôlego. O conto fala de Seu Vivaldo, que herdou do pai uma próspera loja de tecido, dos anos 50 a 70, até que as roupas prontas e baratas levaram o estabelecimento à falência e fecharam as alfaiatarias. Hoje, a loja não passa de prateleiras completamente vazias. Mas Seu Vivaldo, sempre, muito bem vestido, abre o estabelecimento, invariavelmente, às 8 horas, e fecha, às 18 horas. “Ninguém mais entra mais, ali, para comprar nada, porque nada há. Incansável, ele, agora, já não tem pressa de fazer girar o seu capital, não tem medo de uma nova onda fabril soterrar as suas mercadorias, nem de o tempo envelhecê-las, ou tirá-las da moda. As suas mercadorias ficaram encantadas e já não gritam mais por tesouras, agulhas e dinheiro. Não são tementes ao tempo, porque este já não existe mais, ali. Seu Vivaldo, agora, vende memórias”, diz o conto.
Já em “O endireitador de sonhos”, Brandão traz a instigante história do Velho Carmelo, um homem rude que se especializou em enxergar os sonhos das pessoas. Quando eram ruins e recorrentes, tipo pesadelos, o Velho Carmelo os endireitava e os devolvia como sonhos bons e prontos para serem sonhados. O endireitador sabia, também, arrancar de dentro dos sonhos coisas materiais que atormentavam os sonhadores, e as consertava.
Triste e terno, “O circo que não estreou” é um conto que aborda a chegada à cidade de um circo pobre, sem cobertura e que jamais pode estrear, por causa de um longo período de chuvas que se instalou, no Município, na noite de estreia. Um menino, personagem do conto, passa a conviver e a falar às escondidas com Cassimiro Coco, um boneco marionete do circo e tenta criá-lo. Outro conto, “O poeta e a cidade”, relata a estadia de um poeta na cidade. O estranho homem, que tinha o dom de passar por paredes como fosse uma visagem, uma livusia, saía, de casa em casa, de beco em beco, prestando assistência poética às pessoas necessitadas de poesia.

ILHA CULTURAL – O livro “Desacontecenças” faz crer que, há, ainda, ilhas culturais regidas por outra noção de tempo, espaço e existência, a exemplo de Santana dos Brejos, que continua alimentando a memória amorosa do autor. “Para textualizar a memória amorosa, Aloísio Brandão mobiliza o seu amor estético, transmitido não apenas com recordação, mas como realidade viva”, explica, no texto da orelha do livro, João Vianney Cavalcanti Nuto, doutor em Letras pela USP (Universidade de São Paulo) e professor de Teoria da Literatura da UnB (Universidade de Brasília).
O poeta e jornalista brasiliense Vicente Sá, que assina a apresentação de “Desacontecenças”, observa que a literatura sertaneja nordestina – tanto a oral, como a escrita e musical -, sempre, foi puxada para o fantástico. “É, aí, em que Aloísio Brandão apresenta-se como uma nova janela literária”, acrescenta o poeta. Ele destaca que o que o diferencial dos contos de Brandão é o texto pleno de literatura que dialoga com a poesia. E arremata: “Desacontecenças’ é de um fantástico lírico, suave e sem horrores”.
Para a cantora e compositora Luli, parceira de música de Aloísio Brandão e que formou com Lucina uma dupla bem-sucedida, que assina pérolas da MPB, a exemplo de “Bandolero”, sucesso na voz de Ney Matogrosso, o autor de “Desacontecenças” escreve e compõe “como quem tece uma renda barroca”.
SOBRE O AUTOR – As lembranças mais remotas que Aloísio Brandão tem de si são do seu envolvimento precoce com o que ele denomina de pré-poesia e com a música. Arriscava versos, menino, ainda. Passou a infância ouvindo histórias surreais dos mais velhos e, desde então, intuía que a palavra seria definitiva em sua vida. Estudou Letras (curso incompleto), é formado em Jornalismo e mora, há 36 anos, em Brasília, onde atua como jornalista profissional. Este é o seu livro de estreia no conto.
CRÉDITO DAS FOTOS DE ALOÍSIO BRANDÃO:
Bonecos: Iosikazu Maeda . Sentado: Clériston Frota
A produção.

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