no blog do Brown: a greve da PM e a volta ao passado __

Posted: April 22, 2014 in cidadania, José Bomfim_blog do brown, politica e debates_

No Blog do Brown
Foto feita por Walmir Cirne durante assembleia dos policiais em 15 de abril no Wet n' Wild. De camisa grená, o jornalista Rafael Rodrigues entrevista policiais.
21 abr A mão pesada do Estado. A ameaça da LSN é real

Foto feita por Walmir Cirne durante assembleia dos policiais em 15 de abril no Wet n’ Wild. De camisa grená, o jornalista Rafael Rodrigues entrevista policiais.

Outra vez a Polícia Militar da Bahia entrou em greve, dois anos depois da anterior. E como das vezes anteriores, o caos se instalou na capital e no interior. Bandidos assaltaram, mataram e morreram. Pais e mães de família – daqueles que você vê na rua e nunca imagina que vão cometer algum ato ilícito – arrombaram lojas com picaretas, carros e caminhões e roubaram tudo que puderam.

As emissoras de TV Aratu e Record exibiram cenas filmadas nas madrugadas dos três dias de greve em que moradores de bairro deixaram de lado o propalado mito da educação baiana e fizeram misérias. Em Cajazeiras, por exemplo, botaram fogo na loja da Cesta do Povo, que existia para facilitar a vida de quem mora lá.

Na quinta-feira, 17, a greve acabou. O cardeal Dom Murilo Krieger, arcebispo primaz do Brasil, interferiu, rezou o Pai Nosso com a tropa insurgente, e tudo parecia caminhar para o clima de paz. Na sexta-feira, porém, no meio da tarde caiu como uma bomba a notícia de que um dos líderes da greve, provavelmente o mais midiático deles, vereador do PSDB Marcos Prisco, ou Soldado Prisco, como  gosta de ser chamado, foi preso pela Polícia Federal.

Prisco é presidente da Associação de Policiais e Bombeiros e seus Familiares do Estado da Bahia (Aspra), uma das seis associações que lideraram a greve dos policiais.

O pedido de prisão foi do Ministério Público Federal (MPF), o juiz Antônio Oswaldo Scarpa, da 17ª Vara Federal em Salvador, expediu o mandado e determinou 90 dias de detenção para Prisco. Imediatamente, a PF o levou para o Complexo da Papuda, em Brasília.

Como se fosse um jogo de futebol com torcidas pró e contra, a população se dividiu em quem gostou e em quem não gostou da prisão. Quem gosta e quem detesta o líder mais conhecido da greve.

Emissários do governador Jaques Wagner vieram a campo para dizer que o governo estadual não tivera nada com a prisão. O coronel Alfredo Castro, o mesmo que comandou a invasão da UFBA e depois foi escolhido pelo petista Wagner para comandar a PM durante seu governo (clique e veja post aqui, no blog) jurava que a prisão era em consequência dos fatos ocorridos na greve de 2012. O secretário de Segurança Pública jurava por Wagner que o acordo feito para acabar a greve não fora descumprido.

Do outro lado, o Capitão Tadeu, deputado estadual pelo PSB, anunciava que a tropa ia aquartelar, ficaria nos quartéis, não iria para as ruas e na prática continuaria a greve. A TV mostrava Prisco no aeroporto, sendo levado  para Brasília. Em seguida, a ex-ministra do Conselho Nacional de Justiça Eliana Calmon, candidata ao Senado pelo PSB, desautorizava Capitão Tadeu. E Prisco mandava mensagem para que seus companheiros não retomassem a greve.

Isto acalmou os militares – cerca de 100 se aglomeraram na Praça Municipal de Salvador – e a greve não foi retomada.

A essa altura, ficamos sabendo que o Ministério Público Federal pediu a prisão com base na Lei de Segurança Nacional, a tristemente recordada LSN da ditadura militar de 64, para manter a ordem pública. A rapidez do pedido e a prisão chamaram a atenção. Afinal, temos múltiplos exemplos, principalmente na área política, em que para prender alguém acusado de crimes como corrupção, lavagem de dinheiro e formação de quadrilha demora quase uma década. A LSN impulsiona a rapidez, pelo visto.

Ritual parecido só mesmo na ditadura militar, essa que intelectuais, políticos e afins reverberaram com discursos mil há 22 dias.

Dos sindicatos e dos sindicalistas quase silêncio total.

Quase, porque o sargento José Lourenço Dias deu entrevista ao jornal A Tarde: “Não há como retomar a greve agora, pois depende de assembleia. Mas faremos manifestações. Foi um golpe baixo. Prisão de uma liderança depois que a greve termina é repressão”, disse o diretor da Associação dos Policiais do Estado da Bahia (Aspol), sargento José Lourenço Dias.

Uma nota do Sindicato dos Policiais Federais. Clique aqui e leia o documento na íntegra.

O Solidariedade também divulgou nota contrária à prisão de Prisco. Clique e leia.

No domingo, o vereador do PSOL de Salvador, Hilton Coelho divulgou uma nota pública contrária à prisão e pela libertação do presidente da Astra. Clique e leia: (Hilton Coelho diz que prisão de Prisco foi autoritária e pede libertação de líder da PM).

Os outros optaram em não desgastar o governo e manter a salvo suas alianças políticas. Todos sabem que as greves dos professores em 2012 e a dos policiais em 2014 foram feitas para cobrar do governo o cumprimento de acordos feitos nas greves anteriores. Jaques Wagner, que chegou ao governo com fama de grande negociador – dado o seu histórico de sindicalista e militante – encerra seu mandato sem justificar tal fama. O que ele fez mesmo foi levar carlistas históricos para seu governo, gente que ele e quem votou nele sempre combateu por considerar que o modelo carlista não favorecia o humanismo, as minorias e os movimentos sociais. Pelo visto, Jaques Wagner e sua turma não pensam mais assim.

Quanto aos silenciosos, eles darão um jeito de justificar o silêncio e certamente convencerão suas categorias. Só não devem se esquecer que a ameaçadora LSN continua disponível para o governo, quando for necessário o Estado mostrar que sua mão é pesada e pode ser usada a qualquer momento contra os inimigos, exatamente como os truculentos militares dos anos de chumbo faziam.

El Beso, , Aneta Szacherska

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