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Posted: September 21, 2012 in jornalismo, José Bomfim_blog do brown

No Blog do Brown …

O designer Rogério Duarte, do marxismo, do Cinema Novo, da Tropicália, do Hare Krishna

O blog reproduz aqui reportagem do jornalista Rodrigo Sombra para O GLOBO (texto e foto) com uma figura fundamental na intelectualidade brasileira dos anos 1960 e 70. O designer Rogério Duarte hoje leva vida religiosa em Salvador e terá sua trajetória contada em documentário. Leia o texto a seguir, é muito interessante.
A reclusão de Rogério Duarte, mentor do tropicalismo
SALVADOR – ‘Quando eu vejo aquela Nina da novela xingando Carminha: “Sua vaca, sua vaca!”, eu penso: Meus Deus, que mulher imbecil, quanta ignorância… — diz o designer Rogério Duarte, devoto Hare Krishna, em protesto contra a heresia ao santo nome da vaca.
Rogério é caso singular na arte brasileira de quem atravessou marxismo, Cinema Novo, Tropicália e realizou-se na filosofia hinduísta. Celebrado pelas capas de LPs que fez para Gil, Gal e Caetano, foi mentor intelectual do tropicalismo nas artes gráficas e fora delas. Zé Celso Martinez Corrêa, Hélio Oiticica e Torquato Neto são tributários de suas ideias. O homem que Glauber Rocha disse estar “por trás de todos nós”, contudo, há décadas acostumou-se ao anonimato. Convertido ao movimento Hare Krishna, recolheu-se a uma vida religiosa e passou a se ocupar da discreta missão de traduzir sânscrito.
Em fase de pré-produção, um documentário sobre sua trajetória a ser rodado nos próximos meses pelo cineasta baiano Walter Lima promete devolvê-lo à superfície.

— A ideia (do documentário) é mostrar o Rogério pensador — explica Walter. — Além de um designer maravilhoso, ele é uma figura fundamental na intelectualidade brasileira dos anos 1960 e 70, como foi Oswald (de Andrade) na década de 1920.
 
Há anos Rogério vive sozinho em Salvador e diz raramente encontrar os amigos tropicalistas. Práticas de meditação, trigonometria e xadrez on-line hoje lhe ocupam os dias. Mais magro do que nas fotografias conhecidas da juventude, há um ano superou um câncer nas cordas vocais e aparenta levar uma vida austera. Na sala de seu apartamento quase nada sugere a ideia de decoração. Imagens não ornam paredes, caixas empilham-se umas sobre as outras e uma lousa com o alfabeto sânscrito ladeia uma pilha caótica de peças de xadrez. Em um canto, cartazes carcomidos dos filmes “Meteorango Kid” e “Idade da Terra” dão testemunho de seu ofício como designer.
 
— Recebo (convites), mas recuso. Não tô mais fazendo — diz Rogério, sobre projetos como artista gráfico. — Minha obra é histórica, pertence a um momento da história do design mundial, não é para ser pasteurizada.
Afastado do design, foi professor universitário e encurtou a distância entre o leitor brasileiro e a literatura sânscrita. É dele a primeira versão direta para o português do épico hinduísta “Bhagavad Gita”, publicado nos anos 1990 pela editora Companhia das Letras. Sem grande repercussão, lançou em novembro passado sua tradução do “Gitagovinda”, poema medieval de Jayadeva Goswami que narra os passatempos sexuais de Krishna às margens do Rio Jamuna. Conhecido por sua visão erotizada da transcendência, o texto pertence ao cânone das letras indianas.
— Ali tem coisas que só os grandes poetas do Ocidente alcançaram, como (T.S.) Eliot, Goethe… — diz Rogério, admirador exaltado da comunhão entre o sexo e o divino que há em “Gitagovinda”. — É absolutamente necessário que nossa mente suja ocidental seja lavada pelas águas eróticas do Rio Jamuna, para a gente entender que sexo é a coisa mais nobre e sublime.
Karma e tortura
Chancelada pelo professor Howard Resnick, PhD em sânscrito pela Universidade de Harvard, a edição brasileira de “Gitagovinda” saiu com a módica tiragem de mil exemplares. Rogério revisou, editou, elaborou a capa e bancou-a do próprio bolso.
 
Grande parte da obra pela qual Rogério é celebrado se concentra na década de 1960. A pujança criativa desse período seria abalada na Páscoa de 1968, quando ele e seu irmão Ronaldo participaram de um protesto no Centro do Rio e foram presos e torturados por militares. O nome Rogério Duarte Guimarães pode ser encontrado em relatórios dos órgãos de repressão recém-abertos no Arquivo Nacional.
Em ficha do SNI (Sistema Nacional de Informações) emitida cinco dias após sua soltura da prisão, ele ocupa menos de meia página e é descrito sucintamente como “elemento de esquerda, assim como o irmão Ronaldo, ligado às atividades de artes plásticas”. Um carimbo estampado ao final da ficha informa que anexos foram destruídos. À época, a notícia da prisão dos irmãos Duarte — uma das primeiras denúncias contra a tortura cometida pelo exército — provocou sismos na opinião púbica pré-AI-5.
Quarenta e quatro anos depois, a posição de Rogério sobre o episódio da tortura é matizada. Como anistiado, reclama uma reparação mais justa e diz guardar “um pouco de mágoa”. Espiritualmente, a interpretação é outra. (completa)

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